O Resgate da Natureza em Espaços Abertos Públicos

04/05/2019

 

Com o crescimento das cidades, aumento de loteamentos e arranha-céus, meios de transporte geradores de gases, poluição visual e outros impactos ao meio ambiente, se faz premente a implantação de praças, parques e ciclovias em espaços abertos públicos, para tornar a cidade mais verde.

 

Então, você deve estar se perguntando: Em todo loteamento novo é destinado uma área para equipamentos comunitários e praça? Será que em todas estas áreas destinadas à praça existe mesmo arborização, com estares e espaço para lazer? A praça de seu bairro possui calçamento para pedestres, ciclovia para bicicletas, playground para crianças, árvores de grande porte para sombra e equilíbrio da temperatura da cidade? 

 

A arborização urbana de grande porte, a vegetação nativa perene e florida e o gramado são elementos de paisagismo importantes para as praças, parques e ciclovias, que precisam ser resgatados e preservados.

 

Nossas cidades precisam voltar a “respirar” com espaços abertos públicos de qualidade para pessoas, tanto através da revitalização de espaços ociosos, terrenos abandonados que não cumprem sua função social como prevê o Estatuto da Cidade, praças antigas com poucas ou sem nenhuma árvore, quanto a criação de praças novas em bairros e implantação de ciclovias.

 

A exemplo da revitalização de espaços públicos cita-se: High Line Park de New York, Superkilen em Copenhague, Córrego de Cheonggyecheon em Seul e Jardin de La Rambla Sants em Barcelona. 

 

 

 

É em meio ao verde da natureza que as pessoas conseguem se reconectar a sua essência, buscar seu eu interior. Neste sentido, em praças e parques arborizados as pessoas podem encontrar melhores espaços para meditar, caminhar, pedalar e se sociabilizar, com mais satisfação e qualidade de vida.

 

O ideal é que todas as praças e parques tenham equipamentos e mobiliários urbanos como bancos, lixeiras, iluminação, bebedouros, local para lanches, sanitários públicos acessíveis, monumentos, canteiros floridos, ciclovias e muitas árvores de diferentes tons de verde. Lembrando também das praças de esportes e lazer com quadras de futebol, voleibol e basquetebol para torneios entre escolas. 

 

 

Muitas vezes a falta de segurança em praças ou parques se dá pela falta de atividades e movimento de pessoas, pois quanto maior for a atração e o interesse pela praça, maior será seu uso e movimento. O aumento da co-presença gera maior segurança entre as pessoas, sendo que cada tipo de atividade vai atrair um público alvo de acordo com aquela atividade.

 

Mas, não basta ter atratividades e eventos em determinados espaços abertos públicos, se não houver políticas públicas voltadas a preservação e resgate da vegetação nativa, que fornece identidade e traz legitimidade ao lugar. 

 

No entanto, em meio ao crescimento e desenvolvimento urbano acelerado, fica cada vez mais difícil identificar as características originais da vegetação, que são intrínsecas aos bairros. É preciso maior fiscalização quando da implantação de novos loteamentos, principalmente em relação às suas áreas verdes destinadas aos equipamentos comunitários e praças. Estes tesouros verdes precisam ser resguardados com suas matas nativas, de modo a preservar sua fauna e flora original. Estas áreas serão os novos espaços abertos públicos da cidade, que se preservados trarão maior identidade da natureza local.

 

Em, “A Imagem da Cidade”, o urbanista e escritor americano Kevin Lynch trouxe o conceito de como perceber os ambientes urbanos, como analisar e melhorar as formas visuais de uma cidade. Para Lynch, todo morador possui relações com alguma parte de sua cidade, e a imagem que ele elabora delas, possui memorias e significados. O autor analisa a “fisionomia da cidade” a partir de algumas características, responsáveis pela formação de imagens. Sejam elas: a legibilidade, a estrutura, a identidade, o significado e imaginabilidade. 

 

A primeira característica é a legibilidade, ou seja, a capacidade de se entender e reconhecer com clareza os aspectos visuais da cidade. O segundo aspecto envolve a estrutura, a identidade e o significado das imagens. A estrutura diz respeito à relação entre o objeto, seu entorno e o observador, a identidade diz respeito à individualidade e o significado é uma característica bastante subjetiva, seja ele prático ou emocional, que determinado objeto tem para cada indivíduo. 

 

A terceira característica é a imaginabilidade, que é a capacidade de um objeto e elemento de registrar uma forte impressão em todo e qualquer observador, impondo-se na percepção e memória de todos. Este conceito está ligado à definição de legibilidade, uma vez que imagens marcantes aumentam a probabilidade de construir uma visão clara e estruturada da cidade.

 

Além destas características que formam a imagem da cidade, Lynch também fala sobre os principais elementos que a compõem, dividindo sua imagem em vias, marcos, limites, pontos nodais e bairros. 

 

 

Mas, ao analisar em conjunto todos estes elementos construídos da cidade, pode-se dizer que o relevo, a topografia, os cursos d’água naturais, a vegetação, ou seja, a valorização dos Elementos Naturais, que trarão fortes características de legibilidade, estruturando, trazendo identidade, significado e, principalmente, a imaginabilidade aos espaços urbanos como um todo. Em meio a cidade já consolidada, o Resgate da Natureza é a palavra-chave.

 

E dentro desta linha de pensamento, o botânico e paisagista, Ricardo Cardim, traz sua contribuição para nossas cidades, o resgate da natureza por meio da Mata Atlântica. Ricardo Cardim, aborda no livro “Remanescentes da Mata Atlântica” que a devastação da mesma é um fenômeno muito pouco registrado e disseminado. Originalmente este bioma predominava na paisagem costeira do Brasil, detentora de uma das mais ricas biodiversidades do mundo. Atualmente, resistiram apenas 12,4% da floresta que existia originalmente e, desses remanescentes, 80% estão em áreas privadas. Para se ter uma visão espacial, dos 26 estados do Brasil, 17 fazem parte da Mata Atlântica. 

 

Ainda no livro, o autor registra as maiores árvores ainda existentes na Mata Atlântica, em expedições por cada um de seus principais ecossistemas, um verdadeiro legado para toda a sociedade e os apaixonados por botânica. 

 

“As crianças estão vindo com outro olhar sobre a natureza. Tenho muita fé de que elas vão causar uma revolução, e a tecnologia vai resolver muitos problemas. (...) Vai chegar o momento em que vamos conseguir ter a harmonia entre o conforto moderno e o modo de produção econômico, e conseguiremos restabelecer parte do território natural.” Ricardo Cardim (em entrevista com a BBC News Brasil) 

 

 

O paisagista Cardim traz para este resgate da Mata Atlântica, o conceito da Floresta de Bolso. Uma técnica natural de restauração da Mata Atlântica desenvolvida por ele (marca registrada da Cardim Arquitetura Paisagística), onde a composição e espaçamento das espécies procuram respeitar a dinâmica original das florestas, proporcionando um crescimento mais rápido, com menor perdas, um baixo consumo de água e pouca manutenção. 

 

Adaptada a escala urbana, a floresta de bolso pode ser implantada em pequenos espaços, a partir de 15 m² ou também em grandes áreas da zona rural, reconectando a população ao patrimônio vegetal nativo. Seu plantio é feito basicamente com a participação de cidadãos voluntários, que almejam o resgate da biodiversidade urbana, tendo como foco principal áreas públicas de praças, parques e canteiros centrais.

 

Este exemplo de resgate da mata nativa pode trazer inspiração em outras regiões, conforme a fauna e a flora local. O verde urbano precisa de atenção e maiores cuidados, principalmente quando se trata de diminuir a temperatura dos recintos urbanos, reter as águas pluviais, atenuar a poluição sonora, criar reservas ecológicas, filtragem de gases tóxicos como o gás carbônico na atmosfera, entre outros.

 

Dentre as árvores nativas da Mata Atlântica as mais utilizadas na arborização urbana são: 

  • Araçá | Psidium cattleianum

  • Aroeira | Schinus terebinthifolius