A Arte de Planejar um Jardim

31/08/2018

 

O planejamento de um jardim, na visão do artista e paisagista Burle Marx, é uma das mais complexas formas de arte, pois exige a compreensão de outras artes e o forte sentimento de aprender com a maior de todas as artes, a Natureza.

 

E nesta arte de planejar um jardim é preciso selecionar as espécies que ora se contrastam, ora se complementam, assim como na pintura, escultura e na música, formando uma sinfonia.

 

Entretanto, para que esta sinfonia fique harmoniosa a seleção de espécies deve levar em conta o fator natural mais importante no traçado de um jardim, na visão de Burle Marx: a Luz. 

 

Ao tomar partido da "luz" o paisagista pode obter resultados surpreendentes de luz e sombra, pois assim como o movimento do sol traz resultados diferentes do amanhecer ao entardecer, o crescimento das espécies gera composições cromáticas diferentes no decorrer do tempo.

 

Faz-se necessário também observar a beleza nas relações cromáticas do jardim durante as quatro estações do ano. 

 

“Os materiais de um jardim não variam – árvores, arbustos, ervas, água, pedras, tijolos. É a proporção entre esses elementos, sua relação uns com os outros, que criam as diferenças de estilo. ” Roberto Burle Marx

 

O importante é compreender o ambiente natural no qual o jardim paisagístico será implantado. O estudo da paisagem do local e suas peculiaridades irão revelar as características intrínsecas das espécies que crescem na região.

 

Por isso, querer usar espécies com cores muito diferenciadas pode tornar difícil a adaptação das mesmas no local, porque nem todas se adaptam a qualquer paisagem. Elas se desenvolvem a pleno vigor quando aliadas ao seu próprio grupo ecológico. 

 

Então na arte do planejamento de jardins, cabe ao paisagista refletir a paisagem circundante, plantando espécies que crescem na região, as quais são ecologicamente compatíveis e já estão adaptadas ao clima e ao solo do lugar. 

 

Assim, nestes jardins de natureza organizada, o artista Burle Marx pôde revelar a beleza das cores e das formas, das mais exuberantes espécies encontradas no Brasil, trazendo para a paisagem a harmonia e o ritmo com seus volumes ordenados. 

 

O paisagista percebia cada planta como um ser vivo único, com necessidades e preferências próprias, as quais vistas sob diversos ângulos transformavam-se com o sopro dos ventos, com o brilho do sol ou mesmo com o cair da chuva.

 

Em seus projetos sempre havia um elo de cores, texturas, formas ou até mesmo perfumes.

 

 

Nas palavras de José Tabacow, arquiteto-colaborador do escritório de Burle Marx até 1982:

 

“(...) o conteúdo da obra de Burle Marx vai muito além da beleza física, pois suas atividades de paisagista e de conservacionista se confundem, sem fronteiras definidas, a planta sendo, ao mesmo tempo, seu material de composição e um símbolo de amor à vida." 

 

Para Burle Marx o jardim, como forma de arte, deve ser coeso, completo em si mesmo, contendo ambientes repousantes que encantem e tragam bem-estar.

 

Nesta arte viva em constante transformação, onde suas formas crescem e suas cores variam com o passar do tempo, todas as partes devem se relacionar em perfeita harmonia.

 

Hoje, muitos paisagistas são desafiados em seus projetos a realizar inúmeras atividades: criar um jardim de destaque; um jardim que propicie refúgio; elaborar margens de estradas, trevos e rotatórias; organizar parques, praças, alamedas, jardins botânicos e até hortos.

 

E, nesta complexidade de atividades, o paisagista tem um papel importante, que é sempre manter a função estética em primeiro plano. Seja qual for a função social ali desenvolvida, a beleza do jardim é essencial.

 

Na arte de planejar um jardim, o paisagista tem a oportunidade de transformar o espaço aberto como um dos elementos vitais para a requalificação de nossas cidades.